Março 15 2007

2ª parte no número seguinte

 

Prosseguimos esta rubrica, com a divulgação de alguns dados referentes a uma pessoa que muitos dos ansianenses ainda recordam bem, quer porque tenham sido seus alunos, ou porque simplesmente foram seus munícipes. Trata-se do Prof. Albino Simões, muito anos ligado ao ensino na Escola Primária de Ansião e à autarquia local, como Vereador, Vice-Presidente e Presidente da Câmara Municipal.
            Muitos dos melhoramentos ligados à construção de estradas e arranjos de caminhos, de escolas primárias, electrificação de lugares, arranjo urbanístico das vilas de Avelar e Ansião estão de alguma forma ligadas ao seu nome.
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O Prof. Albino Simões foi, efectivamente, na década de 1960, uma das mais destacadas personalidades da vila de Ansião, acumulando os cargos de autarca com as funções profissionais de professor (no ensino oficial e no Externato Soares Barbosa) e de delegado escolar, e a condição de membro activo dos corpos dirigentes de várias colectividades da vila de Ansião, designadamente a sua Filarmónica, Clube de Caçadores e Bombeiros.
 
Foto
Prof. Albino Simões (22.12.1909 – 7.11.1979)
 
            O Prof. Albino Simões foi, de facto, uma das mais destacadas personalidades de Ansião no período do Estado Novo. À semelhança de muitos outros ansianenses da minha geração, das gerações anteriores e até da posterior, tive-o como professor durante todo o ensino primário, na antiga Escola da vila.
Apesar de algum excesso de rigor, típico daqueles tempos, ficou-me a imagem de um professor atento, perspicaz e eficiente na arte de ensinar. No tempo em que era meu professor (entre 1962 e 1966) acumulava essa função com a de Presidente da Câmara, membro dos corpos gerentes da corporação dos Bombeiros de Ansião e também, desde 1963, Presidente da Direcção da Filarmónica.
            Albino Simões nasceu no Marquinho, freguesia de Ansião, no dia 22 de Dezembro de 1909, e era filho de José Simões e de Feliciana de Jesus Simões. Casou no dia 22 de Março de 1938 com a Professora Laura Dias e tinha residência no Moinho das Moitas (Ansião). Teve quatro irmãs: Maria de Jesus Simões, Albertina Simões, Deolinda Simões e Eulália Simões.
            Crente na eficácia administrativa das instituições do Estado Novo aderiu, por inteiro, ao novo regime. Foi Comandante do Terço da Legião Portuguesa e Dirigente da União Nacional no concelho.
Na sequência do desempenho desses cargos políticos e dadas as suas qualidades pessoais, rapidamente chegaria às cadeiras do poder municipal, ocupando praticamente todos os cargos possíveis desde Vereador a Presidente da Câmara. Foi Vereador da Câmara Municipal de Ansião, de 1942 a 1948; Vice-Presidente da Câmara, de 1948 a 1950; e Presidente da Câmara, de 1960 a 1966.
No que respeita ao ensino, para além de Professor do ensino primário, foi Fundador e Professor do Externato António Soares Barbosa e Delegado Escolar do Concelho de Ansião (década de 1950). Mas a sua acção também foi bastante relevante no que toca ao associativismo local, tendo desempenhado cargos de gestão na maior parte, senão na totalidade, das colectividades ansianenses, tendo sido, nomeadamente, Director do Clube de Caçadores de Ansião, Presidente da Assembleia Geral da CASAN (1965 a 1970) e Presidente da Direcção da Sociedade Filarmónica Ansianense, entre 1963 e 1970.
            Recordamos, de seguida, o dia da sua posse como Presidente da Câmara de Ansião, a 29 de Abril de 1960, em Leiria, perante o Governador Civil do Distrito, Olímpio Duarte Alves.
Reportagem do seu acto de posse como Presidente da Câmara de Ansião
Servimo-nos do jornal O Mensageiro, de Leiria, edições números 2218 e 2219, para transcrever alguns excertos que reportam à sessão solene da posse do Prof. Albino Simões como Presidente da Câmara de Ansião.
«(…) Para o cargo de Vice-Presidente da Câmara Municipal de Ansião, vago pela saída do Sr. Prof. Elísio Mendes de Oliveira, cuja gerência de oito anos mereceu do Governador justíssimo galardão, foi nomeado e empossado o distinto delegado escolar daquele concelho sr. Prof. Albino Simões.
Os corredores e o salão nobre do Governo Civil estão repletos de pessoas (…) que se fizeram transportar em automóveis e camionetas (…).»
O Governador Civil de Leiria, a certa altura do seu discurso, referindo-se ao Prof. Albino Simões, disse tratar-se de um «homem novo na idade mas não na experiência administrativa, conhecedor dos problemas camarários, nacionalista do primeiro plano, ao seu concelho vai dar o melhor da sua inteligência, do seu esforço, da sua vontade firme para realizar uma obra. A tarefa que tem diante de si não é fácil; o concelho é pobre quanto a receitas mas o novo presidente fará o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes» (O Mensageiro, n.º 2218, páginas 1 e 2).
Várias personalidades usaram da palavra para enaltecer a obra do Presidente cessante e augurar para o agora empossado, a continuação de grande obra para o concelho. Intervieram Adriano Carvalho e, entre outros, o Dr. Adriano Rego, antigo Médico Municipal e Presidente da Câmara e da Comissão Concelhia da União Nacional, que começou por justificar a sua presença naquela sessão.
(Continuamos a servir-nos de O Mensageiro, agora da edição n.º 2219, páginas 1 e 2): «Está ali pessoalmente, sem mandato algum mas certo de interpretar o sentir unânime de Ancião inteiro e da maioria se não unanimidade de todo o concelho para cumprimentar os srs. Presidente e Vice-Presidente da Câmara Municipal no acto das suas investiduras e regozijar-se com todos por a Presidência da Câmara ter voltado para a sede do concelho. A seguir justifica a razão e a necessidade que há de organismos políticos e administrativos terem na sua sede a residência de quem os dirige, tantos, tão complexos e por vezes tão urgentes são os problemas que quotidianamente demandam solução.
A intervenção do Dr. Adriano Rego
Outros argumentos apresenta o sr. Dr. Rego para justificar a sua afirmação.
É assim que se fazia a política, se tem de fazer hoje e se há-de fazer por muitos anos ainda.
(…) Por fim faz o elogio do novo Presidente da Câmara de Ancião estreitando-o num fraterno abraço de parabéns com os seus sinceros e veementes votos de uma presidência fácil, feliz e fecunda, votos que são extensivos ao sr. Vice-Presidente e como este é um novo na política acrescidos estes votos do desejo sincero de que seja sob os melhores auspícios que tenha início a sua carreira política hoje começada.
Mas, não veio só para saudar embora este fim só por si fosse mais do que suficiente para ter deixado, por instantes, aquele lugar reservado, pelo tempo, aos de sua idade.
Veio, como bom nacionalista que se preza de ser, para dizer como o valor duma testemunha de vista que já lidou na política com o sr. Prof. Albino Simões e teve ensejo de verificar a sua competência, o seu dinamismo, o seu interesse por tudo o que diga respeito ao concelho, à Nação, ao Estado Novo.
Tece a seguir o orador o mais rasgado elogio, à inteligência viva, ao carácter íntegro e probo, à dedicação sem limites, ao nacionalismo operante e sem mistura do Novo Presidente da Câmara de Ancião e terminava dirigindo-se ao Sr. Governador Civil.
Colocou V.ª Ex.ª em mão firme e segura a política e a administração do concelho e pode fazer como faziam os marinheiros de antanho quando o mar era tranquilo e o vento de feição: sentavam-se à sombra da vela e deixavam o barco deslizar suavemente sem preocupações nem cuidados.
Usa por último da palavra o novo Presidente da Câmara Municipal de Ansião, sr. Prof. Albino Simões. Na assistência que por completo enchia o salão e corredores do edifício do Governo Civil perpassa um movimento de curiosidade. Todos querem ouvir o novo Presidente. O que vai prometer? Como procurará alcançar meios para realizar obras de necessidade e de interesse para o concelho? Vamos reproduzir algumas das suas palavras:
Aqui está a dizer: Presente
Soou a hora do render da guarda no concelho de Ancião e coube-lhe agora a fazer o seu quarto de sentinela. Como soldado disciplinado que se preza de ser e não por qualquer outra razão que aqui está a dizer: Presente!
Segue com entusiasmo a doutrina honesta e de verdade do Estado Novo desde o seu início e por isso aceitou o pesado encargo de dirigir por algum tempo os negócios do concelho, responsabilidade para a qual sente minguadas as suas forças. Não o move o prazer de mandar. Também não foi qualquer vantagem de ordem material que o determinou a aceitar o cargo para cuja obtenção em nada concorreu. Sente a dificuldade em administrar um concelho de tão minguados recursos como o de Ancião e em que há muito a fazer na continuação da acção governativa, na satisfação dos desejos e aspirações cada vez maiores das populações.
Entre as maiores aspirações do concelho, quer referir-se à continuação da estrada de Ancião para Alvaiázere e Vila Nova de Ourém. Confia no auxílio de todos e no patrocínio do sr. Governador Civil. Na pessoa do sr. Governador Civil agradece ao sr. Ministro do Interior a prova de confiança que lhe é dada pela sua nomeação para o cargo de Presidente da Câmara Municipal do seu concelho. Apesar de ir trabalhar com a melhor boa vontade, quando forem desnecessários os seus trabalhos não embaraçará de qualquer modo a política do seu concelho nem a acção directiva das Autoridades Superiores, saindo satisfeito, de espírito isento e de cabeça levantada como agora entra.
Seguiu sempre uma política ortodoxa. Não pertence a qualquer grupo e declara que procurará dedicar-se e trabalhar pelo interesse de todos e em especial dos mais desprotegidos, como afinal é a vontade do Governo. Para tudo conta com o auxílio do Sr. Governador Civil.
Apresenta cumprimentos ao sr. Prof. Elísio Mendes de Oliveira, Presidente cessante, a quem o ligam sentimentos de boa amizade e em quem sempre viu um servidor honesto e cheio da melhor vontade de servir e de acertar.
Quer ainda apresentar cumprimentos muito especiais ao sr. Dr. Adriano Rego, velho nacionalista, mas sempre jovem, que na chefia política do concelho de Ancião esteve sempre nos lugares de comando desde o 28 de Maio; sempre presente, não se poupando a sacrifícios, por vezes bem grandes, para servir com dignidade, com justiça e com honra, cidadão íntegro de quem tem ouvido inúmeras vezes dizer: “Foi o Presidente que fez alguma cousa em Ancião”. Tem a maior satisfação em ver presente o sr. Dr. Adriano Rego, sempre interessado não tanto pela política em si mas pelo bem estar de todo o concelho, esquecendo mal entendidos e desorientação de atitudes e intenções.
Sensibiliza-se por o sr. Dr. Vítor Faveiro, ilustre ancianense, estar presente pela delegação que fez no sr. Dr. Melo de o representar no acto de posse. Sabe bem da sua nunca destemida dedicação que ele e todos esperam há-de continuar a manter-se para bem do concelho.
Agradece igualmente a presença do clero do concelho e de todos os presentes e faz desde já um apelo a todos e dum modo especial aos ancianenses: Apela para o seu brio, para as suas boas qualidades para se porem de parte quaisquer melindres, qualquer motivo de ordem pessoal ou secundária, para todos trabalharem em colaboração íntima para fazer mais pela vila e pelo concelho. Deixemo-nos de críticas destrutivas e desanimadoras substituindo-as por um trabalho para o bem comum.
Não façamos ainda menores as nossas forças com divisões e atitudes desalentadoras. Unam-se inteiramente todas as vontades para o bem comum. É sempre necessário e valioso o contributo de cada um para qualquer obra que se faça.
A presença de tantas pessoas ao acto da sua posse não pode ser atribuída como atenção a si, mas à doutrina de Salazar, o infatigável obreiro número um de Portugal, que tão brilhante e sàbiamente conduz a Nação aos seus destinos históricos.
O orador faz o mais rasgado elogio da obra de Salazar. A terminar diz:
“É ao calor irradiante e da simpatia benevolente, ao calor da amizade desinteressada que há-de, que quer temperar a sua vontade de servir, de melhor servir a nossa terra, o meu, o nosso concelho!”
Uma prolongada salva de palmas cortou as palavras do novo Presidente da Câmara de Ancião que foi vivamente abraçado e cumprimentado pelos que vieram assistir à sua posse (…)».
 
Foto
Casa onde viveu o Prof. Albino Simões, nesta vila.
 
A 1.ª reunião com os representantes das freguesias
No dia em que perfaziam dois meses sobre a sua posse como Presidente da Câmara, o Prof. Albino Simões reuniu como todos os Presidentes e Regedores das Freguesias do concelho de Ansião.
A notícia saiu em O Mensageiro (de 23 de Julho de 1960):
«Ancião, 30 de Junho – A convite do sr. Prof. Albino Simões, Presidente da Câmara Municipal deste concelho, que se encontrava acompanhado do Vice-Presidente e dos Vereadores, reuniram-se ontem nesta vila os Presidentes e os Regedores de todo o concelho.
Pelo sr. Presidente foi feita uma longa exposição de trabalhos e directrizes a seguir para o bom aproveitamento dos recursos públicos e particulares, no sentido de melhor beneficiar as populações das respectivas freguesias.
Estabelecido um debate sobre alguns pontos da exposição, alguns dos presentes apresentaram as suas sugestões e aspirações, as quais servirão para orientar a Câmara na resolução dos diversos trabalhos a executar.
Seguidamente, pelo sr. Presidente foi oferecido um suculento almoço a todos os presentes, que serviu de pretexo para troa de saudações.
Ao Ex.mo sr. Governador Civil foi enviado um telegrama de saudações.»
Meio ano depois as autoridades distritais visitam o concelho
Pouco mais de meio ano após a posse do Prof. Albino Simões como Presidente da Câmara, vieram as autoridades do distrito, ao concelho, mais concretamente ao Avelar, para testemunharem um cortejo de oferendas a favor do Hospital do Avelar.
De facto, muitas vezes, o reforço financeiro para a sobrevivência deste tipo de instituições era conseguido através de cortejos de oferendas, a que não raro se associava todo o concelho. Um desses Cortejos teve lugar no dia 4 de Dezembro de 1960, e foi presenciado pelas autoridades do Distrito, do Concelho e pelas individualidades de maior destaque do Concelho. A ele assistiu também o Director de O Mensageiro, que fez a reportagem jornalística. Dela extraímos o seguinte trecho:
«É sempre com saudade e alegria que percorremos as estradas e visitamos as terras do Distrito onde passeávamos há bons 50 anos.
Está neste número a vila do Avelar, então pequena vila a que dava importância o seu Santuário, a sua Romaria anual com o lançamento do Grande Bolo no forno, como se fazia em Abiúl, Pombal, S. Tiago de Litém e noutras terras e uma fábrica de chales. Além destes três elementos de vida, ainda o Avelar se impunha pelo grupo de homens da vila e cercanias que impunham pelo seu carácter e influência política a sua vontade em Leiria. Pelas suas ruas, pelo seu pelourinho, pelo vasto largo no centro da povoação e ainda pelas moradias, o Avelar devia ser a terra que merecia o nome de Vila, como reminiscência das 5 vilas de outrora – Aguda, Avelar, Chão de Couce, Pousa Flores e Maçãs de D. Maria.
Hoje a Vila do Avelar, sem desmerecer nem esquecer o seu passado, impõe-se pelo seu progresso, bem podendo ser classificada de importante centro industrial têxtil e de cerâmica.
A aumentar estas faculdades de trabalho, a Vila do Avelar acrescenta a da generosidade dos seus habitantes, como bem o demonstrou o cortejo de ofertas para a Fundação de Nossa Senhora da Guia que tem a seu cargo a manutenção do Hospital, o primeiro a ser construído nos concelhos da Serra (...).
O Cortejo / Aguardadas as Autoridades de Leiria, das quais estavam presentes os srs. Governador Civil, ex.mo sr. Olímpio Duarte Alves, Presidente da Junta Geral do Distrito, Coronel José Pereira Pascoal, Presidente da Câmara Municipal, capitão Perez Brandão, pelo Sr. Presidente da Câmara de Ancião e outras individualidades da sede do concelho de Ancião e pelas principais pessoas do Avelar, constituindo-se assim um longo desfile de automóveis, dirigiram-se aquelas e a Comissão para a tribuna armada na frente do Hospital, perante a qual começou a desfilar o cortejo, que prèviamente já percorrera algumas ruas da vila.
As ofertas / Havia de tudo e sobretudo havia alegria. Como se dá a rir, a cantar, quando se sabe que o que se dá é para mitigar dores, enxugar lágrimas, acudir aos que necessitam. Passam por nós os carros da indústria com tecidos lindos, com cobertores, com agasalhos, grandes camiões com produtos cerâmicos, carros de lavoura tirados por animais de canga carregados de madeira, de lenha, de produtos agrícolas, carros representando o artesanato, o trabalho rural, carroças com bilhas de azeite, sacos de milho, trigo, feijão. Até engraçadas serranas e operárias com os seus gericos carregados lá desfilaram com o seu donativo, a sua oferta para o Hospital.
Não faltou a esfusiante alegria do Rancho da Vila, as cachopas com as suas blusas brancas, tão brancas que devem ter sido lavadas com omo e os rapazes com camisas brancas e de cintas tão vermelhas como o sangue que estuava nas suas veias ao atirarem para o ar com as suas marchas, as suas canções. Não faltou a Filarmónica do Avelar a animar o cortejo.
Disseram que o cortejo devia ter rendido cerca de 200 contos. Não nos surpreende este total. Os Avelarenses deram a rir, a cantar, com o seu coração. Bem hajam. (...)». - O Mensageiro, n.º 2243, de 10.12.1960, páginas 1 e 4).
 
(continua no próximo número)
publicado por ansiaonews às 15:45

A História Ilustre de Ansião pelo Dr. Manuel Augusto Dias
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